Formações cohorts: a educação do futuro baseada em comunidades

Vivemos hoje a quarta onda da educação online, com os Cohort-Based Courses, ou apenas Cohorts. É, pela primeira vez, um modelo nativo digital, ao explorar na educação, o DNA da Internet, ao promover formações abertas, interativas e flexíveis guiadas por comunidades de prática.

A atual onda da educação é ainda mais envolventeuma aprendizagem ativa e prática, em que as pessoas, direcionadas por comunidades, estão no centro da experiência, e não apenas consumindo conteúdo de maneira passiva. Isso aprimora a experiência do aprendizado. Cohort-Based Learning é o novo capítulo da educação online para os próximos anos.

As formações Cohorts têm um grupo de estudantes com interesse autêntico num determinado tema e que ingressam em um curso online e o seguem no mesmo ritmo, mas com senso de urgência. Por exemplo, no caso de coding bootcamps, há um alinhamento na busca de obtenção de um emprego na área de tecnologia ao fim do programa. O retorno do investimento, seja de tempo e financeiro, é claro e rápido.

Existe toda uma estrutura e orientação por parte das escolas e instrutores, com um modelo centrado na comunidade formada: na medida em que as pessoas aprendem, compartilham e aplicam no dia a dia o que estão descobrindo em tempo real, elas incentivam as outras a continuar evoluindo. A interação se dá em diversos momentos, pois se combinam conteúdos sob demanda e discussões assíncronas, com encontros ao vivo, reservados para atividades que só podem acontecer sincronamente, como interagir, realizar mentorias e construir projetos em pares, em um ambiente propício para o crescimento das pessoas.

É, finalmente, uma educação online que entende e tira vantagem do potencial da internet, sendo centrada no usuário, e com potenciais de desenvolvimento de habilidades que fazem a diferença em um mercado de trabalho mais ágil, dinâmico e tecnológico. Para chegar até aqui, é importante resgatar as ondas anteriores da educação online, que construíram as bases para esse novo modelo.

MOOCs, Marketplaces e Plataformas de EAD: a trajetória até a onda dos Cohorts

Os MOOCs (Massive Open Online Courses) foram a primeira onda da educação online. Popularizados entre 2008 e 2010 por grandes universidades e consórcios como Coursera e edX, que oferecem conteúdos gravados em formato de vídeos sob demanda e, geralmente, contam com um programa de estudos definido para milhares de alunos. Responsáveis pela democratização de acesso ao conteúdo educacional de alta qualidade em uma época de escassez, no entanto, sua taxa de conclusão dos cursos, como tem sido amplamente relatado, é de apenas 6%. O modelo é flexível, barato e massivo, no entanto, com uma baixa experiência centrada nas pessoas.

Enquanto os MOOCs ainda cresciam, surgiu uma segunda onda, a dos grandes marketplaces educacionais, como Skillshare e Udemy, que permitiram que qualquer pessoa pudesse criar e, principalmente, disponibilizar o seu curso online de maneira rápida e fácil. Foram responsáveis pela democratização de não-professores como criadores de conteúdo. Por outro lado, a falta de curadoria adequada colocou lado a lado ótimos cursos com alguns no mínimo duvidosos. Em pouco tempo, os criadores de conteúdos foram se tornando mais profissionais e começaram a perceber que não havia a liberdade necessária para expandir o negócio. Isso deu início à terceira onda: Plataformas de Educação à Distância.

A expansão de vários projetos de educação online exigiu maior controle sobre todos os aspectos do negócio educacional, como alunos, marketing e precificação. E, para suportar o crescimento, surgiram plataformas como Kajabi e Teacheable fora do Brasil, e as nacionais como Hotmart e EAD Box (atualmente HeroSpark). Essas ferramentas permitiram a criação de milhares de negócios de educação e infoprodutos. É ainda uma onda poderosa, mas infelizmente, as taxas de conclusão desses “cursos individualizados” não são muito melhores que as dos MOOCs.

Nesta onda, também nasceram os famosos lançamentos de infoprodutos que, infelizmente, em muitos casos fazem promessas um tanto exageradas de entregas, as quais foram responsáveis pela frustração de milhares de pessoas com a compra não responsável de cursos que simplesmente nunca foram finalizados. Programas individuais exigem muito das pessoas: contexto, tempo, energia e disciplina. Relativamente poucas pessoas conseguem individualmente dar conta de tudo isso.

E, assim, chegamos à quarta onda, dos Cohorts. É importante dizer que não são novidades. De certa forma, a graduação tradicional presencial é um cohort, apesar de não contar com diversos elementos comuns em comunidades digitais. Mas agora, a popularização de plataformas como Zoom, apoiada no acesso cada vez maior à Internet de alta velocidade, maturidade de uso do digital e diversas plataformas digitais colaborativas como o Miro, tornou a videoconferência e a colaboração online em grandes grupos confiáveis. A Maven, uma startup que ajuda profissionais a dar aulas baseadas em Cohorts, apoiada pelo fundo Andreessen Horowitz e fundada por Gagan Biyani (fundador Udemy) e Wes Kao (AltMBA), é um grande exemplo. Isso muda o jogo na educação!

Os cohorts são centrados nas pessoas, sem promessas irreais, contam com comunidades autênticas e flexibilidade de tempo na medida certa para que os alunos avancem. As cinco principais características que diferenciam o novo modelo baseado em cohorts que serão exploradas abaixo são:

  1. Comunidade
  2. Equilíbrio entre conteúdos assíncronos e ao vivo
  3. Contrato social
  4. Aprendizagem ativa e prática
  5. Começo e fim

Cinco grandes características dos cursos cohorts, mas centradas em comunidade

A evolução humana acontece em comunidade, construindo e aprendendo em pares e grupos. Cohorts são diálogos. Existe um crescimento individual quando as pessoas compartilham e se desafiam juntas; elas aprendem umas com as outras. Os Cohorts giram em torno de uma comunidade de pequeno a médio porte, pois comunidades grandes demais ou pequenas não geram o engajamento necessário. Pela minha experiência nos bootcamps baseado em cohorts já realizados pela How com milhares de alunos, uma comunidade com, por volta de 150 pessoas, gera um alto engajamento, responsável por até 70% de conclusão do curso. Mas o relacionamento não acaba ao fim do curso, a comunidade continua ativa, por exemplo, ao ajudar outros estudantes na colocação no mercado de trabalho em áreas técnicas voltadas para empregabilidade.

Comunidades profissionais ativas são a base de carreiras de alta demanda no mercado como Engenharia de Software, UX Design e Gestão de Produtos Digitais. Por exemplo, em Engenharia de Software, existem centenas de comunidades nichadas em determinadas tecnologias, as quais muitas vezes determinam ou não o uso de uma tecnologia pelo mercado. O grande avanço do JavaScript nos últimos anos tem como um dos principais fatores a força de sua comunidade na disseminação de tecnologias e frameworks, bem como na alta geração de conteúdos e aprendizados em grupo, além de um forte sentimento de pertencimento.

Ao participar de um curso Cohort, você conhecerá novas pessoas de todo o mundo, especialistas e interessadas naquela área. Seus interesses e objetivos são semelhantes, o que torna mais fácil aumentar a rede e construir relacionamentos. E tudo isso expande as perspectivas dos estudantes, pois conforme o curso evolui e os participantes se envolvem com outras pessoas, serão automaticamente expostos a novas ideias, opiniões e experiências, aumentando rapidamente seu repertório. E esse benefício baseado em comunidade é exclusivo do modelo cohort quando comparamos com educação online sob demanda.

As demais características dos cursos Cohorts

Equilíbrio entre conteúdos assíncronos e encontros ao vivo

A combinação de conteúdos assíncronos e encontros ao vivo faz com que os criadores de conteúdo (ou facilitadores, como os chamamos na How) planejem tudo de uma forma muito mais organizada, permitindo que participantes do Cohort se conectem não somente ao suporte de mentores e professores, mas também de colegas. Os encontros ao vivo são utilizados para motivar os estudantes com pessoas convidadas especiais, grandes palestras, tirar dúvidas com mentores, discussões reais e trabalhos em grupos apoiados por tecnologias atuais que são confiáveis e não geram atritos.

Contrato social

Os Cohorts reinventam em um ambiente virtual as diversas camadas de responsabilidade social e suporte encontradas em universidades e ambientes presenciais de ensino. Facilitadores, mentores e a própria comunidade ajudam os alunos a persistirem quando as coisas ficam difíceis. Além disso, os estudantes conseguem ver claramente as etapas, o progresso e o que falta para a conclusão. Estar em uma comunidade e criar relacionamentos entre colegas e facilitadores faz com que se valorize o ambiente, ainda mais em circunstâncias desafiadoras, com todos se unindo em torno de um objetivo comum: aprender, finalizar o Cohort e dar o próximo passo na carreira. Isso faz toda a diferença.

Aprendizagem ativa e prática

Os conteúdos assíncronos e o envolvimento de alunos e alunas com engajamento e com a dinâmica de pessoas facilitadoras e mentoras, permitem o uso de metodologias ativas: um conjunto de abordagens educacionais com o objetivo de posicionar os alunos como protagonistas de seus processos de aprendizagem. São uma das maiores tendências no setor de educação nos últimos anos, e entre as abordagens possíveis de metodologias ativas, três se destacam no modelo Cohort: a sala de aula invertida (alunos e alunas no centro, e professores como mediadores), aprendizagem entre pares, e aprendizagem baseada em projetos. Há um contrato social embutido na aprendizagem ativa.

Começo e fim

Como alunos e alunas avançam em um programa com outras pessoas, o aprendizado baseado em Cohort fornece uma estrutura mais desenhada na forma de datas e entregas. Os participantes mantêm-se uns aos outros responsáveis e motivados para assistir aos encontros ao vivo, concluir projetos práticos e contribuir com as discussões na comunidade. E, assim, os alunos chegam à conclusão do curso. Porém, o Cohort não acaba ao fim do curso. Geralmente, as comunidades continuam ativas e os alunos podem seguir por meses e até anos evoluindo com a ajuda dos pares. A programação forçada de datas fixas adiciona um senso de urgência e foco primordial para a finalização do programa.

Um futuro de educação online que dá resultados

Com a pandemia, todos nós fomos levados de forma mais acelerada à educação online de alguma forma. E ficou claro o gap entre o que é oferecido e o resultado atingido, o que levou ao surgimento de cursos baseado em Cohorts, com um aprendizado ativo e totalmente dirigido por comunidades de prática que avançam em conjunto. Os Cohorts contam com datas fixas durante o programa, reforçando o aspecto do tempo real e criando uma curadoria na abundância de conteúdo que existe.

Os Cohorts têm a chance de cumprir a promessa de democratização e resultado da educação online, especialmente na medida em que os alunos continuam a apoiar uns aos outros após a finalização dos cursos, criando uma rede ativa e digital contínua de aprendizagem.

Em educação à distância, os Cohorts não são apenas o futuro, mas sim a melhor opção em termos de resultados de aprendizagem.

Leandro Henrique de Souza
Investidor-anjo, educador e fundador da How, edtech pioneira em bootcamps Cohorts para áreas de alta demanda no Brasil.

Referências e links interessantes para quem busca saber mais:
https://future.a16z.com/cohort-based-courses/
https://www.researchgate.net/publication/330316898_The_MOOC_pivot
https://www.forbes.com/sites/dereknewton/2020/06/21/the-depressing-and-disheartening-news-about-moocs/?sh=1320227c76ed
https://fortelabs.co/blog/the-rise-of-cohort-based-courses/
https://www.linkedin.com/pulse/cohort-based-courses-next-phase-online-education-phil-charles/
https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/09/study-shows-that-students-learn-more-when-taking-part-in-classrooms-that-employ-active-learning-strategies/
https://kajabi.com/blog/what-are-cohort-based-courses
https://online.wharton.upenn.edu/blog/cohort-vs-self-paced-learning/
https://medium.com/age-of-awareness/how-cohort-based-courses-can-help-you-master-any-skill-you-want-70949fd3e68

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